MORDOMIA CRISTÃ ( cuidando do que é de Deus)

MORDOMIA CRISTÃ ( cuidando do que é de Deus)

Um dos conceitos básicos da fé cristã é que somos responsáveis por zelar e cuidar da vida que Deus nos concedeu. No Gênesis, o homem foi colocado pelo Senhor como mordomo da criação, mas perdeu esta capacidade de cuidar dela pela queda ( Gn 3) através do pecado.
A salvação em Cristo trouxe de volta esta dimensão e perspectiva existencial e vivencial, relacionada com todas as áreas de nossa vida. Temos então que resgatar este cuidado por tudo que Deus nos deu e continua dando por Sua graça e amor, pois Ele é um Pai amoroso que tem prazer em nos compartilhar “toda boa dádiva”. Temos que cuidar e zelar como mordomos:

a. Pela criação.

“No princípio criou Deus o céu e a terra” Estas são as palavras de abertura da Bíblia. Na mesma narrativa de Gênesis, fala que nós, ao mesmo tempo que fomos criados à imagem e semelhança de Deus, ele nos deu domínio sobre o restante da criação. Somos instrumentos cruciais de preservação e de cuidado com a natureza e com o ser humano. É uma tremenda responsabilidade e privilégio sermos mordomos da criação.
• Deus diz à humanidade na narrativa da criação que “sujeite a terra, cultive e a conserve”, assumindo sua administração e respondendo por ela diante Dele. Ser mordomo é cuidar da propriedade para a outra pessoa. Não tem direitos legais sobre ela mas está encarregado dela e responsável diante do proprietário.
• Nosso ambiente é a matéria prima para a nossa prosperidade, mas não é um tesouro ilimitado. Estamos à nossa própria custa, e descobrindo por causa de sociedades industriais altamente complexas que as futuras gerações enfrentarão a perspectiva de um mundo falido e exaurido. Nossa geração levará parte desta culpa por agir irresponsavelmente e de maneira egoísta com os recursos naturais do mundo.
• Os problemas da humanidade são imensos e uma contribuição cristã não é apenas possível, mas necessária. Relativismo e individualismo são inimigas desta ação. Na obra clássica de Aldous Huxley “Admirável mundo novo”, vemos como seria um futuro em que nossas realizações cientificas dominassem o mundo. Ele pinta um quadro aterrorizante: a engenharia genética cria o tipo certo de pessoas para as necessidades sociais e o individuo é classificado de acordo com sua inteligência e utilidade. O estado vem em primeiro lugar e as pessoas por ultimo.
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O Dr Francis Schaeffer no seu livro “O Deus que intervem”, diz que, como criaturas das mãos de Deus, temos que nos envolver com o cuidado da criação, e contribuir para a sua não deterioração, tanto no contexto próximo onde estamos inseridos(nossa cidade e país), como nas questões ambientais mundiais. Muitos cristãos lideram hoje ONGs e projetos sociais, participam de movimentos de preservação em diversas frentes, com causas que temos que abraçar e não nos omitir, dando testemunho de nossa fé em Cristo, numa ação e prática social e política dentro da perspectiva cristã sobre cada assunto.
- preservação da natureza
- reciclagem de lixo
- cuidado com a água ( limpeza)
- saneamento
- cultivo e exploração adequada da terra
- instalação de filtros antipoluentes em fábricas.
- desenvolvimento de motores que poluam menos.
- Controle e qualidade de alimentos
- Programas de desarmamento e não violência são alguns exemplos.

b. Pelo nosso corpo. Somos responsáveis pelo corpo que recebemos de Deus, habitação do Seu Espírito. Cuidando dos agentes externos que vimos acima, somos muitas vezes negligentes com nosso corpo quando não o exercitamos e não controlamos nossa alimentação, tanto em qualidade como em quantidade. Isto também é pecado, mas parece que somos tolerantes neste aspecto. Tratar de disfunções orgânicas, por exemplo, faz parte do cuidado desejável, como também a busca por uma melhor qualidade de vida. Lazer e descanso é fundamental. Tempo sabático tem sido negligenciado pelos cristãos e pela igreja, que se envolveu num ativismo desgastante.

c. Por nossa mente e coração. Paulo escreveu em Romanos 12. 1 e 2 que somos responsáveis em abastecer nossas mentes e corações com a Palavra de Deus. O cultivo da espiritualidade não pode ser negligenciada. O salmista recomenda a disciplina da leitura e meditação (Salmo 1); precisamos buscar conhecimento e cultura, reflexões cristãs sobre todos os assuntos da vida, caminhos saudáveis para cultivarmos nossa mente e a mente de Cristo que está em nós ( 1 Co 2). Jesus escreveu que se nossos olhos forem bons, todo o nosso corpo será, portanto, zelar pelo que entra através deles. É uma promessa de vida saudável e abundante em nosso corpo, mente e coração.

d. Por nossos relacionamentos. Toda a nossa vida é relacional. Primeiro com Deus, com a criação, com a família ( relação marido e mulher, filhos) com a sociedade, com o próximo e conosco mesmos. Temos que buscar entendimento numa vida mais reta e justa, convivência pacífica, tolerância, exercício do amor, perdão, compaixão e comunhão e todas as dimensões da mutualidade cristã, que prevê até a dinâmica com nossos inimigos ou que fazem mal a nós (orar e abençoar os que nos amaldiçoam, retribuindo o mal com o bem. etc). Cuidado com uma vida comunitária bíblica e saudável é importantíssimo também neste item.

e. Por nosso dinheiro. O princípio correto, é que “o dinheiro não é nosso, mas de Deus” ( Tudo o que somos e temos é Dele). Ele provê o sustento necessário por sua fidelidade e cuidado, não só para nossa manutenção digna, mas para abençoarmos a outros e até a prosperidade deve ser entendida neste prisma. O Dr. Shedd pregou num culto missionário dizendo que Deus nos abençoa para abençoar a outros, para repartir e não para ajuntarmos individualmente tesouros na terra e sermos mesquinhos.
Dízimos e ofertas são respostas de obediência, compromisso e amor a Deus, que trazem os recursos necessários para o sustento da obra de Deus, seja na igreja local, em missões, obras sociais, e que contribuem para a expansão do Reino de Deus. Dar e repartir é investir com Deus, ato contínuo de sacrifício, generosidade e sensibilidade e liberalidade que deve ser praticado com alegria.
( textos complementares para estudo: Rm 12.13; 2 Co 9.12; Dt 15.7-8, Lc 16.10.13; 2 Co 8.12; 2 Co 9.6-7; Pv 19.17; Lc 19.17; Mt 6.19-21; 2 Co 8.1-5)

f. Por nossos sonhos e projetos profissionais. Deus nos chamou como mordomos, para servir a Ele e ao próximo. Dentro deste prisma, nossa vocação, chamado e trabalho, habilidades e dons, foram dados por Deus para o coletivo e bem comum, para testemunho de Sua existência e presença, para a manifestação de Sua glória ( 1 Co 10. 31; Col 3.17)

Creio que temos material suficiente para uma reflexão sobre mordomia cristã. A pergunta que fica é: temos sido fiéis e obedientes nas áreas que refletimos acima? Não podemos fugir desta avaliação diária em nossa vida cristã, se queremos ser mais parecidos com Cristo em tudo que somos e fazemos como discípulos e como igreja.

Oração: “Confessamos Senhor, nossa infidelidade em muitas áreas. Vem com teu poder e nos capacite. É o Senhor quem opera em nós tanto o querer como o realizar, mas precisamos nos colocar em Suas mãos para honrarmos o Senhor e sermos fiéis e perseverantes na mordomia de nossas vidas. Ajuda-nos, ó Pai”.


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