Sinais do reino de Deus nas expressões de arte e louvor

O povo de Deus que se expressa através do louvor e música em tantos cantos deste país está perdendo seu senso de missão. É interessante notar isto ao olharmos as manifestações artísticas que vemos hoje no meio evangélico, manifestações cada vez mais entrincheiradas dentro dos templos ou ambientes de encontros chamados de adoração. E quando saímos de nossos guetos, levamos a arte, a música e o louvor numa linguagem burra, desconexa e não contextualizada.

Insistimos em sermos lâmpadas dentro de uma caixa de lâmpadas e em ser sal dentro do saleiro, perdendo portanto, a finalidade de sua razão de existência, isto é, iluminar no meio da escuridão e salgar impedindo que a carne se apodreça tão rapidamente e que ganhe sabor. Desejamos viver protegidos, sem desafios que exijam de nós aprendizado, disciplina e preparo.

Adoradores e artistas perdem e desprezam a noção de usarmos a vida, a música e todo o tipo de expressão artística para manifestarmos e testemunharmos do evangelho que abraçamos. Por causa de uma teologia distorcida e pouco bíblica, insistimos em ensinar e orientar que os artistas devem “largar o mundo” e não podem mais atuar fora dos limites eclesiásticos e nem atuar profissionalmente, contrariando o ensino de Jesus de sermos testemunhas e presentes no mundo como testemunhas do amor e presença de Deus..

Alguns artistas chamados cristãos cantam letras mais vez mais superficiais, camufladas, que mais “escondem” o conteúdo da Palavra de Deus, músicas e letras de conteúdo o mais dúbio possível, para que possam tocar em rádios seculares. Ainda pior, usarmos músicas populares conhecidas, e colocarmos versões de letra com linguajar e conteúdo “crentês” (inclusive de filmes como Titanic…). Manifestação artística medíocre, pobre, superficial, mal feita. E vamos assistindo a arte “naufragando” num mar de ignorância e falso senso de santidade.

Vivi recentemene uma experiência onde percebi claramente esta tensão, quando numa mesma cidade e num mesmo dia, estava acontecendo um encontro de louvor num espaço gospel, onde jovens estavam dançando e pulando ao som dos “mantras” atuais (músicas repetitivas de 4 acordes e de longa duração). O evento servia apenas como entretenimento ou mais uma atração, inclusive quando o “som” parava os jovens não ficavam nem para a ministração da Palavra de Deus.

E em outro local uma banda de cristãos faziam a abertura de um show de rock (hardcore), com letras explícitas do evangelho de Jesus. Os jovens não cristãos que chegavam ali, preparados para uma noite de piração e bebedeira, ouviam a Palavra de Deus num testemunho destemido daqueles rapazes.

Ao meu lado, um outro jovem músico cristão, sincero, e que foi convidado para estar ali, que reclamava por estar assistindo aquele trabalho já que “havia negado o mundo” e achava que não deveria estar ali; percebi nele um jovem soldado de Cristo que foi desmobilizado por aqueles que, com preconceitos e uma mentalidade religiosa retrógada e de falsa santidade, o ensinaram e discipularam.

Meu coração se encheu de alegria por ver aquela manifestação de poder e da presença do reino de Deus ali e na vida daquele conjunto que abriu o evento. Perguntei-me se Jesus estaria no encontro de louvor ou ali num ambiente tão desfavorável e aparententemente antagônico à mensagem do evangelho musicada? Imagino que o Senhor iria priorizar estar presente entre incrédulos, com um coração cheio de compaixão e misericórdia!

Lembrei-me de Janires, Comunidade S-8, Desafio Jovem, Jocum, Mocidade Para Cristo, Edson e Tita Lobo, Wanda Sá, Abraham Laboriel, Rique Pantoja, Sal da Terra. Daniel Maia, artistas e ministérios que fizeram nascer trabalhos criativos de testemunho através da música, teatro, dança e outras manifestações da arte e da arte cristã.

Ouvindo meu bom amigo e músico cristão Carlinhos Veiga nestes dias em Vitória num encontro de criatividade, cantando com sua viola e pregando a palavra do Mestre, e meu irmão Shibas de BH dançando, fiquei pensando em quanto nos acovardamos em assumir o testemunho cristão restaurando a cultura e as artes em todas as suas manifestações e quanto temos perdido de tempo e oportunidades em nosso amado Brasil.

E continuamos perdendo músicos e artistas competentes, que vão sendo expelidos, abandonados, por cometerem o “incômodo” de pedir aos pastores e artistas que se preparem e façam a coisa com excelência e disciplina, que sejam criativos e ousados, e que não abracem simplesmente modelos importados estéticos e sonoros de arte. Não podemos perder o senso de missão no que somos e fazemos!!!

É bom ver o reino se espalhando, sendo plantado no coração dos homens em todas as culturas, de um modo constante e misterioso,  mas que cresce mais e mais a cada dia. Que sejamos cristãos e artistas da ekklesia, comunidade dos santos, verdadeiramente “chamados para fora”, presença e testemunho no meio de uma geração perversa, corrupta e errante.


Imprimir este artigo Imprimir este artigo

1 Comentário(s)

  1. Olá Nelson, adorei este artigo!

    Nesteúltimos tempos venho sido criticado por muitos “irmãos crentes” aproveitar meu tempo ouvindo essa gente boa, antiga, porém, atual como a Palavra e não esses mantras gospel de hoje em dia.

    Engraçado como nós crentes estamos mais distantes um do outro do que do próprio mundo!

    Seus artigos me edificam bastante!

    Abraço forte de seu irmão em Cristo

    Eudivan B. Bastos

    Eudivan | 28 de março de 2008 | Comentar

Seu Comentário

  • Nelson Bomilcar
    Nelson Bomilcar é conhecido no Brasil como pastor, missionário, músico, compositor, conferencista e escritor. Casado com Carla e pai de Karen e Nathan, há 33 anos tem abençoado o Brasil com as suas canções, parcerias, produções e arranjos, presentes em inúmeros trabalhos da música cristã nacional.
  • Sessões

  • Prêmio Podcast 2008

  • Mapa do Site

  • Arquivo