Pastores à moda antiga

Permitam-me uma pausa em meus artigos sobre música e adoração para uma outra reflexão.Fui chamado outro dia carinhosamente, ao telefone, pelo querido pastor Elben Cesar (diretor da revista Ultimato) como o pastor-músico-cantor. Fiquei tocado para falar um pouco do pastorado, e do que tenho aprendido e observado.

Um pano de fundo sombrio no meio de tanta confusão em nosso meio evangélico e “gospel”., e da desconfiança que o nome “pastor” traz em nossos dias (principalmente nos grandes centros), desgastado pela enxurrada de auto-entitulados “pastores”, “bispos” e apóstolos” cada vez mais jovens e inexperientes, aparentemente sem vocação ou chamado, que invadiram nossas igrejas e que contam com  a boa fé e ignorância das pessoas sofridas e sem esperança para a construção de seus projetos (reinos) egocêntricos e hedonistas. Junte-se a isso os inúmeros escândalos que trazem vergonha ao evangelho. Mesmo assim, vemos ainda o clamor explícito (ou escondido às vezes) das ovelhas,  clamor por pastores que amam, cuidam e dão suas vidas pelas ovelhas em nosso meio.

Os cursinhos de preparo e orientação profissional consideram hoje (e recomendam) a “profissão” de pastor (confundida com o que estuda teologia) como uma excelente opção para sobrevivência. Está desempregado? Está sem $? Ora, dizem os não cristãos, vire pastor no Brasil e abra a sua igrejinha (negócio), que dá retorno e às vezes um retorno e tanto. Viramos motivo de chacota dentro e fora do meio evangélico..

Por causa desta mentalidade distorcida, tantos pastores sérios (velhos e novos), que vivem humilde e comprometidamente servindo em igrejas locais em tantos cantos e rincões de nosso país e fora dele, dependendo do sustento da casa do Senhor, sofrem privações. Certamente não foram e não serão esquecidos pelo Senhor, fiel e presente em todas as circunstâncias e tribulações e que em tempo oportuno retribuirá justamente. Que Deus fortaleça a todos!

Minha mãe, ex-cantora profissional, crente batista e serva fiel já falecida, orava décadas atrás para que um dos filhos pudesse se dedicar ao ministério pastoral, pois considerava um chamado nobre, digno e honroso. Aliás, a bem da verdade, é mesmo, e o próprio Senhor o considera assim em Sua Palavra. Em seu leito de morte, minha mãe disse que esta resposta de oração em minha vida foi uma das grandes alegrias e sinal da fidelidade do Pai em sua vida.

No Nordeste, Centro-Oeste e em alguns cantos do Brasil onde tenho ido, constato ainda e com surpresa e alegria, o respeito à figura e vocação do pastor, pelo bom testemunho de pastores realmente vocacionados, sinceros e destemidos, que fundaram igrejas, trabalhos missionários e  obras assistenciais maravilhosas. Glória a Deus por isso!

Com 32 anos de conversão e 20 anos de ministério pastoral, além de outros 9 como missionário, com acertos e erros, recordo-me de meus mentores e referenciais de pastorado, homens extraordinários e comuns, mas sérios quanto à vocação, testemunho, trato e compromisso com a Palavra de Deus e com Sua igreja. Santos homens de Deus que me abençoaram e ajudaram em minha formação pastoral e transformação pessoal. São alento para mim e encorajamento.

Louvo a Deus pela vida de queridos pastores e professores como Juvenal Ricardo Méier, César Tomé, Russell Shedd, Carlos Lackler, Paul Andrey, Dionísio Pape, Nélson Lopes, Ary Velloso, Jim Kemp, Bill Asbury, Frederico Orr, Ismail Sperandio, Werner Kaschel, Davi Gomes, Edson Barbosa e tantos outros que me ajudaram a amar a Deus e Sua Palavra, pessoas que Deus tem chamado para Seu rebanho e que são estímulo constante para honrar sempre a vocação pastoral.

Alguns, em certos momentos de suas caminhadas, tornaram-se um pouco prisioneiros e reféns de suas rígidas e sufocantes estruturas denominacionais ou missionárias (causas diversas: afirmação pessoal, tradições, necessidade de sustento, etc…), porém lutaram e permaneceram fiéis à sua vocação. Por causa desta opção, alguns foram até expelidos pelas mesmas estruturas e igrejas que serviram. Outros saíram por decisão pessoal. Só Deus sabe quanto choro e sofrimento houve em suas famílias para honrarem sua vocação pastoral.

Com tristeza e empatia, ouvi de diversos pastores nos últimos anos, em vários cantos do Brasil, um compartilhar dolorido, contido, sofrido, e desesperançoso sobre suas vocações e ministérios recentes. Honraram-me confiando em conversas pessoais, seus dramas, suas lágrimas e dores na alma e coração, para que eu pudesse acolher e apascentar seus corações.

Alguns que reverberavam também as vozes (de espanto e desencanto) de suas esposas e filhos, que às vezes não têm voz, marcados definitivamente em seus corações, alguns até afastados do evangelho, vendo como seus maridos ou pais foram desrespeitados, tratados como peças e não como pessoas, e descartados pelas igrejas locais ou missões onde serviram.

Curiosamente, são igrejas locais e missões que abraçaram modelos empresariais secularizados, voltadas para metas patrimoniais e massificantes, buscando perfis de executivos, não nas qualificações bíblicas, mas pela sua capacidade de liderar e empreender, tolerar e obedecer aos que têm o poder e influência dentro destas estruturas.

Igualmente, algumas igrejas “chamadas” avivadas, com sua cultura espiritualizante e alienada, debaixo da teologia humana e demoníaca da falsa prosperidade (os que são “cabeça e não cauda”…), também tem dificultado e distorcido o exercício da vocação pastoral. Pessoas imaturas e sem preparo algum para ensinar a Palavra ou cuidar de vidas, tem sido conduzidas precipitada e irresponsavelmente ao “cargo” de pastor, pregando barbaridades, fórmulas de auto-ajuda                (determine aqui e ali…) e até mesmo uma estranha mensagem (pastores-gurus tipo Seicho-no-iê, ensinando que não existe dor, e que o sofrimento não deve fazer parte da vida cristã).

Graças a Deus por outros referenciais mais sadios sobre o pastorado. Reflexões e ensino sobre vocação e prática pastoral, que tem sido escritas pelo Rev. John Stott, ensinadas constantemente pelo pastor e professor Eugene Peterson e o Dr. James Houston, homens que têm me influenciado muito, juntamente com o pastor Ricardo Barbosa. Desde que estive no Canadá estudando, buscando transformação pessoal em meu coração e recuperar os referenciais de espiritualidade cristã e vocação pastoral não sou mais o mesmo. Vocês são oásis no meio dos desertos que às vezes se instalam em nossos ministérios.

Infelizmente, pastores não são mais acolhidos como pessoas, por sua vida cristã, integridade, seriedade e compromisso com a Palavra, oração e cuidado com o rebanho, mas pela sua “performance” diante das metas colocadas pela empresa-igreja, sedenta de realizações e sucesso, que muitas vezes escondem as projeções das frustrações e dramas pessoais de tantos que a compõem. Paga-se para que alguns vivam o que membros comuns não conseguem viver e fazer na obra, no dia a dia de suas vidas.

Muitas igrejas-empresa, reconheço, tem boas e sinceras intenções em seu desejo de servir, mas que sinceramente se equivocam em caminhos e modelos escolhidos, tentando cumprir a razão de sua própria natureza missionária e comunitária de ser sal e luz do mundo.

Aqueles pastores, aos quais me referi no início do artigo, ouviram esta frase, de forma jocosa ou com desdém, com pequenas variações: “__ vocês são pastores “à moda antiga”, a realidade das igrejas é outra e vocês não cabem mais dentro dela diante das expectativas de crescimento e sucesso do projeto, tanto do povo como das lideranças locais.”

Não sou ingênuo, caro leitor. Claro que os pastores precisam ter consciência da realidade hoje, tanto do mundo em que vivemos, como da realidade das igrejas e do povo que faz parte dela. Claro que é necessário administrar (é um dom também) o crescimento e a obra, mas é necessário avaliar se é o crescimento ou obra que Deus espera e a Sua Palavra avaliza.

A grande verdade é que, de fato, quem administra a obra de Deus é o próprio Deus Triúno, nem sempre de forma “profissional” (nos moldes de hoje), mas sempre responsável; de forma “amadora” às vezes – isto é, singela e simples – mas com o mover claro de Seu poder. É o que nos ensina a história da Igreja. Não vamos nunca dominar o crescimento da obra ou Aquele que a tudo domina e dá o crescimento.

Pastores honestamente precisam reconhecer suas limitações e também refletir sobre novos paradigmas, adaptando-se para continuarem a exercer sua vocação! Sábios, prudentes, servos, atentos às tentações do ministério, da secularização e pós-modernidade, e buscarem a coragem de viver e levar as ovelhas para uma vida cristã e comunitária autêntica, de comunhão profunda com o Pai, além do clero-templo-domingo, por exemplo.

Novos paradigmas sim, nova mentalidade no jeito de ser, mas não abandonando os princípios da vocação, a essência do ser, do ser pastor, de cuidar de almas, de ajudar as pessoas a andarem e conhecerem a Deus, de levarem os crentes à maturidade em Cristo e abandono de uma vida de pecado, do cultivo de uma vida de adoração, santidade, testemunho e serviço, dedicando-se à oração, meditação, estudo e pregação correta da Palavra de Deus.

Cumprir a vocação Daquele que é fiel e que nos chamou e não ficar tentando atender às expectativas do povo e de suas corporações religiosas quando elas colidem com o que a Palavra de Deus nos revela. Há um preço a pagar, preço nunca escondido por Jesus, Nosso Senhor e Salvador, em Seu chamado ao discipulado e aos que têm a vocação e dom pastoral.

Há muitos até que optaram em exercer sua vocação pastoral não estando oficialmente no “clero” ou em cargos eclesiásticos; fazem-no pela marginal, atuando de forma silenciosa e discreta, fazendo tendas para sustento pessoal, porém, na realidade, estão mais presentes e próximos das ovelhas do rebanho. Pessoas que amam a igreja, Corpo Vivo de Jesus, comunidade de pedras vivas, de pessoas transformadas pelo amor e graça de Deus. E também, o “cuidar uns dos outros”é responsabilidade e privilégio de todos.

Quero apenas deixar registrado minha gratidão àqueles mentores pastores, que me ajudaram a conhecer a Cristo e aprender os caminhos do coração para cumprir a vocação pastoral. Pessoas que ainda recorro em dias de desânimo e lutas. Muitos deles seriam chamados de “pastores à moda antiga”, o que para mim é reconhecimento e virtude, pois tem resistido às tentações e clamores de nossa época no meio evangélico do sucesso a qualquer custo e da sutileza enganosa de “sermos relevantes”. Pastores com doçura e singeleza de coração, que não negociam a Palavra e que amam a Deus e as ovelhas dando suas vidas por elas!

Obrigado por existirem! Paz, força e consolo seja com vocês e suas famílias! Creio que o Senhor tem um recompensa maravilhosa preparada para todos vocês. Louvado seja Nosso Supremo Pastor!


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17 Comentário(s)

  1. Maravilhoso texto, indo de encontro ao meu coração e espectativa sobre aquilo que realemente penso sobre pastoreio. Na verdade é isso mesmo que o artigo diz: Sigeleza, dedicação, doçura e simplicidade.
    Os verdadeiros vocacionados não negociam mesmo seu dom de pastor, pq o chamado grita dentro de nós por honradez e decência, mesmo errando as vezes…
    Pr. Nelson,
    Deus te abençoe e obrigada

    Miriam

    Miriam Froes | 25 de janeiro de 2008 | Comentar

  2. Meu irmão, Você disse tudo que eu sinto, não consigo mais assistir na TV o que é pregado, é´só prosperidade, vitorias,Deus fara, Você tem direito.Um evangelho torto invade nossas casas.
    Se for assim vejo na vida do apostolo Paulo como o mais miserável dos homens,se era caso de escândalo para alguns Paulo ser ajudado pela Igreja ele renegava essa ajuda mesmo tendo direito preocudo com a consciêcia do próximo,mesmo preso lembrava dos seu filhos na fé, citava seus nomes em suas cartas.
    Quando Jesus disse cuidado com os falsos pastores, sinto que essa afirmação é para nossos dias.
    Que Deus coloque no coração desses “pastores” amor pelos pequeninos de Deus
    Que Deus tenha misericordia de nós

    Antonio T. Vasconcelos | 4 de fevereiro de 2008 | Comentar

  3. Sábias palavras Pr..Espero que isso influencie positivamente esses pastores que estão afastando suas ovelhas que não estão procurando prosperidade material e sim serviço devocional a Deus. Já fui evangélica, hoje sou Hare Krishna por esse motivo.

    Que Deus o ebençoe e continue sendo o “pastor à moda antiga”

    Rosana Alves | 25 de outubro de 2008 | Comentar

  4. Excelente texto! Dou graças a Deus por existirem verdadeiros pastores, que amam a essência da fé. Interessante… Em plena crise financeira, o q será dos pastores que administram sua igreja de forma empresarial??? Confiarão em Obama ou no Deus triúno???

    Davi Ebenezer | 7 de novembro de 2008 | Comentar

  5. Parabenizo o amado pastor pelas palavras tão contundentes e relevantes.

    Também fui privilegiado com muitas experiëncias com os chamados “pastores à moda antiga”. Homens de Deus, época em que suas atitudes confirmavam as palavras dos pulpitos.

    Homens muitas vezes esquecidos e ignorados.

    Como era bom tê-los à nossa mesa para compartilharmos o almoço.

    Penso que necessitamos de textos como esse, para refletirmos e redirecionarmos nossos alvos no que entendemos como Reino de Deus.

    Um forte e afetuoso abraço.

    Jorge Luiz

    Jorge Luiz | 19 de novembro de 2008 | Comentar

  6. Parabéns pelo artigo. Compartilho da mesma opinião, pois tenho visto, a cada dia, crescer em nosso meio pastores contra os quais a palavra de DEUS diz:
    Portanto, ó pastores, ouvi a palavra do Senhor:Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel; profetiza, e dize aos pastores: Assim diz o Senhor Deus: Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! Não devem os pastores apascentar as ovelhas?
    Vivo eu, diz o Senhor Deus, que, porquanto as minhas ovelhas foram entregues à rapina, e as minhas ovelhas vieram a servir de pasto a todas as feras do campo, por falta de pastor, e os meus pastores não procuraram as minhas ovelhas; e os pastores apascentaram a si mesmos, e não apascentaram as minhas ovelhas.
    Eze. 34:7, 2 e 8
    Porque os pastores se embruteceram, e não buscaram ao Senhor; por isso não prosperaram, e todos os seus rebanhos se espalharam.
    Jer. 10: 21
    Ovelhas perdidas têm sido o meu povo, os seus pastores as fizeram errar, para os montes as desviaram; de monte para outeiro andaram, esqueceram-se do lugar do seu repouso.
    Jer. 50:6
    ET: Esse Pr Nelson Lopes (citado como exemplo de Pr. à moda antiga)será que é o mesmo que conheço? – Iniciou trabalhos batistas no RS, Barão Geraldo/SP, entre outros ministérios?
    Abraço fraterno em Cristo…
    E dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com ciência e com inteligência. Jer. 3:15

    NELSON PRATES MARTINS | 30 de dezembro de 2008 | Comentar

  7. Muito bom, esse artigo!
    Faz-nos refletir sobre nossa visão de pastorado, em meio a um ambiente onde o conceito tem sido constante e intensamente depreciado, pelos mais diversos motivos, da crítica maldosa e infundada ao péssimo testemunho dado pelos aventureiros de plantão que se arvoram à posição de pastor.
    Por outro lado esse texto nos transmite alegria, por nos trazer à memória que Deus nunca fica sem o Seu remanescente fiel; que nem tudo está perdido; que ainda existem e sempre existirão pastores, com ‘P’ maiúsculo, para cuidar das ovelhas do rebanho do Senhor.
    Obrigado, caro pastor-músico-cantor-irmão_em_Cristo Nelson Bomilcar, por esse presente que tive o prazer de receber e saborear nesse início de 2009.

    Adriano Fabio | 1 de janeiro de 2009 | Comentar

  8. Poxa fiquei feliz por esse comentário do Pr á moda antiga´pois sou filha de um desses,q/acharam até melhor jubilá-lo;pois estava atrapalhando os modernos.Ainda q/ele continua ensinando á moda antiga(tem quem aceita).Mas fikei chateada por saber q/a Rosana Alves foi p/uma seita herética(desculpe mas aprendi assim)por conta desses mais héréticos pastores,apostolos.bispos,e outras modernidades q/existem.Será q/eles sabem do dia do juizo final?Um abraço.

    Lidia Ferreira Braga | 15 de janeiro de 2009 | Comentar

  9. Caro colega Pastor, realmente precisamos sem vacilar continuar a ser o Pastor de almas, a eles anunciando o desejo do coração de Deus que é: serem conhecedores da verdade e praticantes de seus ensinamentos. Sou Pastor da Igreja Presbiteriana Independente, e muito desejoso de levar com seriedade e sinceridade o Evangelho de Cristo aos corações. Meu desejo é de fazer o que o irmão tem feito, ser sério, manso, sincero e dedicado. Precisamos urgentemente influenciar os ditos “pastores” a serem fiéis ao Evangelho de Cristo e não aos desejos pessoais e financeiros. Deus continue contigo, com sua familia, com seu Ministerio. Graça e Paz da Parte de Nosso Deus e Pai.
    Fraternalmente, do
    Um forte abraço do Reverendo Lazaro Alves da Silva Sobrinho/SP/Capital.

    lazaro alves da silva sobrinho | 29 de janeiro de 2009 | Comentar

  10. Parabéns Pr Nelson pelo excelente artigo. Tenho insistido em minhas aulas no seminário que pastorado é vocação do céu e não função ou posição hierarquica. Tenho optado por ser um pastor” a moda antiga” o que não tem sido fácil. Estivemos juntos quando vc esteve em Recife visitando o Nelso Monteiro, foi um prazer conhece-lo.
    Que Deus lhe abençoe cada vez mais
    Pr Elcias

    Elcias Martins | 18 de abril de 2009 | Comentar

  11. QUERO MINHA IGREJA DE VOLTA…
    SE FOR POSSÍVEL!!!

    “Aborreço e desprezo as vossas festas, e as vossas assembléias solenes não me dão nenhum prazer”
    Amós 5:21

    Dizem que “quem vive de passado é museu”, uma forma simplória de criticar aqueles que se prendem a coisas antigas como algum ponto de referência na vida. Neste caso, sem cerimônia alguma, eu me incluo neste conceito, mas com um adendo, para mim “recordar é viver…”. Sei que por esta razão para muitos sou ultrapassado, careta, um quadradão. Prefiro ser quadrado a ser redondo e rolar pelas vielas da vida religiosa indo de um lado para o outro sem ter muita noção do que fazem. Registro apenas que as Escrituras Sagradas existem há algumas centenas de anos, portanto…

    Bem, vamos lá. A história da religião mostra que há alguns anos atrás, não muitos, as igrejas evangélicas eram lugares cheios de pessoas que conheciam a Bíblia de capa a capa, que se portavam reverentemente durante o culto e não raro, as pessoas do mundo admiravam os evangélicos por sua fé e esperança, mesmo nos momentos mais difíceis. Basta retrocedermos um pouco e veremos que os cultos eram cheios de hinos profundamente inspiradores refletindo as “doutrinas fundamentais” da fé cristã. O ofertório era uma demonstração de zelo e gratidão e quando o Pastor subia ao púlpito, todos atentamente recebiam a edificação através de uma pregação “Biblicamente” fundamentada. A mensagem da Palavra era o centro do culto. Esses eram os “crentes” de antigamente.

    Fui á igreja outro dia, sentado nos últimos bancos, me dei ao capricho de “sonhar” já que o que estava acontecendo não me atraía nem pelos olhos, nem pelo coração, muito menos pela espiritualidade. O culto começou com um “período de louvor(?)” com um barulho infernal. Cânticos eram entoados e o povo se movia, batia palmas, gritava no ritmo frenético dos instrumentos, era uma algazarra geral. Havia uma jovem extrovertida que “ministrava” a coreografia e orientava o povo a como proceder durante cada musica executada. Era dia de “batismos”, mas nem parecia tamanha a bagunça e a falta de reverência, a festa solene transformou-se ritual, no mínimo, estranho. Mas, mesmo assim sonhei… Sei que foi utópico, longe de qualquer possibilidade de vê-lo realizado, mas valeu como alerta e como lembrança dos bons tempos daquela igreja.

    Vi aquela igreja onde a BIBLIA foi um dia o centro de tudo! Onde o Pastor “pregava” e não dava aula de “psicologia”; Onde o “pecado” era tratado como tal e não como um simples “desvio de conduta”. Uma igreja onde “louvor” era celebrar a Deus e não um “espetáculo” tecnológico barulhento; Onde o templo era “local de culto” e não uma casa de “shows”; Onde o pregador usava exclusivamente a “BÍBLIA” no púlpito e não um “Notbook”; Onde a reverência era “regra” e não exceção; Onde ouvia-se a “voz de Deus” e não a do povo; Onde era real o “mover do Espírito” e não de pessoas; Onde o “pecado” era combatido e não incentivado sutilmente; Onde havia “adoradores” e não atores ou artistas camuflados; Onde as pessoas iam vestidas para “cultuar” e não para um piquenique; Onde “Jesus” era marca no coração e não uma “tatuagem” na pele; Onde quem tinha “adereços” era a vida e não o corpo; Onde tinha “Embaixadores do Rei, Mensageiras do Rei; União de Jovens” e não um encontro festivo; Onde o povo “lia a Bíblia” e não o que era projetado no telão; Onde as pessoas não eram “filmadas” para serem mostradas para o mundo, mas eram levadas a uma “radiografia” mostrando para cada um os problemas da alma; Onde “batismo” era um momento de reflexão e respeito, não uma festa movida a apitos, buzinas, foguetes e histeria; Uma igreja que “recebia” visitantes e não era ”formada” por eles; Uma igreja que era uma “fonte de água viva” e não uma “cisterna rota”; Onde o “retiro” era espiritual e não uma “festa country”; Onde “Pastor” era um homem de Deus e não um “administrador de negócios”; Onde os crentes “iam à praça” pregar e não “tinham o nome na praça”; Sonhei com uma igreja que “crescia” e não inchava; Com uma igreja que fechava as portas para o Diabo e não colocava “tapetes vermelhos” para recebê-lo. Sonhei… Sonhei em lágrimas ao ouvir o hino “Manso e Suave” com o Pastor fazendo o apelo, num silêncio profundo, para que pecadores se rendessem aos pés de Jesus. Pensei, se isto for sonho, então vou sonhando…

    Subitamente uma “salva de palmas”, “apitos” e “assobios” interrompeu o meu sonho e me despertou. Que susto! Por um momento não me dei conta de onde eu estava tamanha a desordem naquele local de culto. Para minha tristeza eu acordei… Mas sonhei e sonhar não custa nada! Coincidentemente era dia de “batismos” e o povo comemorava, como se fosse num campo de futebol, a chegada de mais um grupo. A propósito havia muita gente vestida a caráter para de fato ir a um estádio, curiosamente eram os que mais faziam barulho. Depois do culto, veio o “foguetório”, tudo em nome do Evangelho. Era a igreja do século XXI e as suas novidades na forma moderna de cultuar. Eu me perguntei, foi um sonho ou seria um pesadelo? Seria um conto de fadas do passado? Lembrei da Bíblia e dos batismos citados por ela e não consegui ligar uma coisa a outra. Alguém se esqueceu de “lembrar” ao povo que eles estavam dentro de uma igreja, que ali era um templo e não um estádio!

    “Celebrai com jubilo ao Senhor… Servi ao Senhor com alegria…”, não significa que devemos fazer algazarra ou nos postarmos com irreverência, pelo contrário, “jubilo” e “alegria” devem ser expressos num sentimento de contrição, respeito e de “ADORAÇÃO” a Deus.

    Hoje as igrejas mudaram muito. E como mudaram! Os evangélicos são vistos como mais uma “tribo urbana”, assim como os surfistas ou os hippies, que tem musica própria, gírias e slogans próprios. O momento de destaque no culto já não é mais a meditação na Palavra de Deus, proclamada por um Pastor bem preparado teologicamente, mas sim o momento de “louvor” produzido pelas mais novas tecnologias do mercado. Não se pede mais nada a Deus, decretam coisas para ele fazer da maneira mais arrogante possível. Descaracterizaram o culto, sob a desculpa de “quebrar a religiosidade” dando a ele todas as características de “show”.

    Basta! Quero minha igreja de volta! Quero sim, e com cara de igreja não como “casa de espetáculos”. Quero os cultos reverentes, o povo sedento por aprender a Palavra de Deus, o sentimento de contrição e submissão diante do Deus Soberano e Criador de todas as coisas. Quero de volta o tempo em que os cultos racionais eram “regra” e não “exceção”. Quero de volta a centralidade da Bíblia e não a busca de “revelações dos últimos dias”. Quero de volta o tempo que ser Pastor era ser um religioso consagrado e não um empresário eclesiástico.

    Como disse, prefiro continuar “quadrado”, pois tenho muitas duvidas sobre esta igreja liberal de hoje lotada de “crentes redondos”. Assim, depois de sonhar, desculpem, mas eu quero a minha igreja de volta!

    Carlos Roberto Martins de Souza
    crms2casa@hotmail.com

    Carlos Roberto | 20 de junho de 2009 | Comentar

  12. Pastor e Músico Nelson Bomílcar, que exposição reconfortante! É bom pensar que ainda tem alguém que zela pela Palavra. Sempre haverá o Remanescente!
    Continua assim, Prezado irmão!

    Ed Simão

    Cantor Ed Simão | 13 de julho de 2009 | Comentar

  13. Caro Nelson Bolmicar,
    Tenho acompanhado tua trajetória cristã, desde os tempos memoráveis do grupo “Vencedores por Cristo”. Fico feliz com o seu ministério multifacetado, sincero, talentoso e sério.
    Quanto às observações feitas sobre o ministério pastoral em nossos dias, compartilho contigo essa indignação e inconformidade. Acrescento as suas sábias palavras, duas constatações que não foram abordadas por ti.
    1ª) O despreparo intelectual de grande parte dos pastores, o que tem gerado desconfiança por parte dos crentes e incrédulos. Cursos de Teologia têm surgido em todos os cantos, seduzindo a tantos e ao mesmo tempo jogando-os às Igrejas para a ministração de teologias insanas, sedutoras pela facilidade com que são absorvidas (teologia da prosperidade) e contrárias à palavra de Deus. Para além dessa constatação, é preciso levar em conta que a Igreja congrega pessoas das mais diversas classes sócio-econômicas e, que por isso, precisa ser considerada em sua pluralidade e diversidade. Nesse sentido, o curso de Teologia, mesmo aqueles sérios, é insuficiente para que o pastor apreenda a realidade com que está tratando. É preciso, para além da vocação e chamado feitos por Deus, que o líder espiritual de uma comunidade cristã tenha a capacidade de olhar seu rebanho através de uma ótica multifocada, o que necessariamente passa por sua formação espiritual, mas também intelectual.
    2ª)O pecado da vaidade. Através dele, o inimigo tem seduzido muitos pastores, que se acham, para usar uma expressão nietzschiana, “além do bem e do mal”. Falo isso, pela experiência de ovelha nesses anos de caminhada com o Senhor. A vaidade vai desde o modo de falar altivo e imponente, como se compreendesse toda a complexidade da condição humana, como se estivesse acima dos demais mortais por ser um padrão acima do normal; até o modo de viver, que em muito excede aos padrões econômicos dos membros da igreja que preside. Lamentável, tudo isso. O que vejo são pregações vazias, que não tocam o coração porque não são verdadeiras, porque não se conformam com a vida de quem prega. Muitos pastores só querem as benesses de Jesus, mas poucos são aqueles que dispõem suas vidas ao serviço Dele; falam da prosperidade, mas se esquecem que o filho do homem – e ele mesmo disse isso -, não tinha lugar para repousar sua cabeça. Abominável é esse evangelho fácil, de portas largas, que aponta para a multiplicação dos dividendos mas esquece da divisão da graça que deve recair sobre todos e não apenas sobre alguns.
    É preciso que os pastores à moda antiga voltem e depressa! Até porque a sua “antiguidade” não é sinal de obsolescência, mas sim de atualidade porque se coaduna com os ensinamentos de Cristo que, certamente, são atemporais.
    Graça e Paz

    Marcello F. Duarte | 1 de agosto de 2009 | Comentar

  14. Por isso, entre outras coisas, que ao invés de ir a um congresso, prefiro tomar um expresso com você Nelson.

    Fernando Oliveira | 2 de outubro de 2009 | Comentar

  15. Meu querido pastor, alegro-me em ouvir estes comentários acima descritos, pois sei que ainda existe pessoas que buscam o verdadeiro evangelho, mas, neste momento quero lhe informar que um dos pastores citado em seu comentário ainda esta VIVO, ensinando da mesma forma que antes e tenho orgulho de ser um de seus discípulo aqui em Manaus.

    pedro cavalcante | 8 de março de 2010 | Comentar

  16. Ola Pastor Nelson,

    Encontrei seu texto na internet quando estava a procura de um desses “pastores ‘a moda antiga” que vc citou. Conheci na epoca da Universidade o pastor Bill Asbury, missionario da ABUB em Sao Carlos. Ele foi um pai espiritual para mim. Estive na despedida dele quando retornou a Inglaterra e nao tive mais noticias. Tenho amigos morando na Inglaterra e pretendo visita-los, quem sabe eu consiga localizar e reencontrar o Bill. Por favor me mande alguma informacao ou noticia se vc tiver, desde ja agradeco e peco que Jesus mantenha firmes os seus passos rumo a Eternidade. Vamos perseverar ate o fim. EM JEsus, sua irma em Cristo , Malu Ribeiro.

    Malu Ribeiro | 3 de janeiro de 2011 | Comentar

  17. E dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com ciência e com inteligência. Jer. 3:15

    PR. QUE DEUS SEMPRE TE ABENÇÕE COM CIÊCIA E COM INTELIGÊCIA. NO FALAR COM OUSADIA REVELANDO O CORAÇÃO DE DEUS E O CORAÇÃO DAS OVELHAS. TAMBÊM VIVO NA COMTRAMÃO DO SISTEMA OPERASIONAL DO HOMEM NAS IGREJAS DO DEUS VIVO,PARA VIVER O CHAMADO SOFRO E PROSSIGO COMBATENDO O BOM COMBATE,GUARDANDO A FÉ PARA COMCRUIR A CARREIRA COM DIGNIDADE NÃO TENDO DE MIM VERGONHA .OU SOU PASTOR SEGUNDO O CORAÇÃO DE DEUS OU NÃO QUERO SER MAIS PASTOR.

    JÚLIO CÉSAR REZENDE | 24 de março de 2011 | Comentar

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