Mudanças, modismos e mantras na adoração brasileira

Não é possível ignorar os processos de mudanças no louvor e adoração nos cultos públicos da igreja brasileira nestes últimos anos. Muitos pontos positivos como maior participação congregacional, maior devoção, centralidade de Jesus, maior interesse em se estudar sobre o assunto, proliferação de encontros e congressos sobre o tema, contrastam com os modismos e modelos que aportam em nosso país levando os irmãos à uma adoração alienada da realidade da vida, da mente, da razão, com forte apelo emocional, e muito antropocêntrica.

Afinal, tudo está relacionada à “imagem” do ministro, do artista, da “unção ou carisma” que parece ter, do sucesso que ele tem, do recorde de vendagem de seus produtos, etc. Pouca relação com a integridade pessoal de uma vida reta, séria e coerente diante do Pai. Ouvi de uma diretora de gravadora que o que importa é a imagem, o que se vende através de uma boa mídia, já que o povo evangélico tá nem aí para o resto. Não importa a vida dos ministros ou artistas!

Surpreende-me ver líderes na igreja, tanto pastores como ministros de louvor, abraçarem estes modelos que chegam em nosso país, como sendo “inspirados” e “vindo diretamente do céu”, sem uma avaliação criteriosa de uma exegese bíblica, espírito humilde e de temor em oração, para discernir com sabedoria se o que tem sido ensinado, enfatizado e ministrado em cursos, CDs e DVDs são de fato verdade e que trazem edificação ao corpo!

É igualmente verdade que pastores e líderes maduros de louvor também estão sensíveis ao mover do Espírito Santo em outras nações e não desprezam de saída os “novos ventos”. Mas, daí a dizer que o que acontece lá tem que acontecer aqui, é manipulação e tentação de uma geração “coca-cola”, que adora fórmula pronta e novidades. Desculpem, se conhecessem o guaraná ou o cajá…..

Mas não podemos esquecer que Deus é criativo e age diferente em diversos lugares, respeitando as pessoas, suas histórias, suas culturas. Deus não está a serviço de uma tendência de globalização, de o que é bom na Austrália, Reino Unido e Toronto é bom para o sertão brasileiro, para a América Latina e para a igreja no Quênia. Que os missiólogos digam amém!

Muitos destes modelos já tem de saída, no mínimo, motivações dúbias, ainda mais quando aportam em nosso país com suas estruturas empresariais logo após seus congressos e encontros, para “venderem” seus produtos e artistas para nós. Nós que, além de “ministério”, somos também seus mercados e clientes em potencial. E quando se mistura ministério e negócios, como vemos na história da igreja, o resultado é quase sempre catastrófico para a igreja e para o reino de Deus.

Frases como “Deus me falou, me revelou, me disse” que o louvor é assim ou assado, não são suficientes para líderes servos, prudentes e experimentados, que precisam avaliar tudo e todo o vento de doutrina ou experiências pessoais de outros. Estamos inclusive numa fase no Brasil e no mundo de ouvirmos sobre “institutos de adoração”, faculdades, que querem ensinar o povo a adorar de verdade e sedimentar estes modelos.

Muitas delas, superpondo e seqüestrando o objetivo da missão que é da igreja local, da comunidade dos santos de formar discípulos e adoradores, da jornada peregrina de construir relacionamentos profundos com Deus, com o irmão, na família e com o próximo. Adoração que não é apenas contemplativa ou alienada, mas encarnada, numa espiritualidade realmente cristã presente em todas as dimensões na vida.

Muitos já confusos em seu conceito de adoração, pois adoração é um estilo de vida e não “um jeito X ou Y de fazer, de ministrar na frente, de uma coreografia ou ênfase nova, de ritos externos, de ficar repetindo o que o dirigente quer lá da frente à guiza de louvor profético, como se fôssemos seres sem cérebro, irracionais. Adoração não depende de usar shofar ou trombone, de alegorismos ou metáforas novas, de retorno ao louvor hebraico, de olhar para o público ou dar as costas a ele”, dos mantras musicais atuais de ficar cantando a mesma música durante 50 minutos levando o povo a uma catarse emocional e proporcionando aos músicos e cantores uma inércia e inutilidade criativa.

Os ritos e esforços externos definitivamente não enganam a Deus, que olha e sonda onde não vemos com Seu Espírito, isto é, a motivação, integridade e verdade do coração. Por mais esforços que o homem faça para adorar, ele não legitima adoração diante do Senhor, não garante que Deus aceitará qualquer tentativa nossa de louvar e adorar.

Segundo Hebreus 13:15, é por meio de Jesus que devemos oferecer sacrifícios de louvor. Somente a mediação de Jesus legitíma nossa adoração, somente o fato de Jesus ter descido da glória, habitado entre nós e ter ido até a cruz se entregando como adoração e louvor perfeito, torna nosso louvor aceito pelo Pai. Nada que o homem fizer em seu esforço pessoal, pode fazer a adoração chegar ao coração de Deus. A não ser reconhecer sua própria inutilidade e incapacidade, num coração quebrantado e humilde, aceitando que dependemos e precisamos de Jesus para adorar a Deus. Ele se fez adoração por nós!

Se enchemos estádios, se caímos ou não no chão, se choramos ou pulamos, se vendemos 100.000 cópias, se ocupamos espaço na mídia, se temos representação e distribuição em muitos países, nada disso é garantia de que Deus aceita ou mesmo está neste processo. Não são modelos que abraçamos que legitimam nossa adoração, mas a pessoa e obra de Jesus Cristo, nosso Senhor!

Que Deus nos ajude e nos guarde de erros e desvios! Paz seja com todos!


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2 Comentário(s)

  1. O uso do Shofar nas igrejas em minha opinião limita o evangelho, que é transcultural, a cultura judaica. Acho que um Árabe não se sentiria bem ao visitar uma igreja evangélica vendo nos nossos púlbitos a bandeira de Israel e um rapaz com um berrante do lado. Repito o Evangelho é Transcultural. Qual sua opinião sobre esses ritos na igreja?

    Wilton | 26 de janeiro de 2009 | Comentar

  2. Estou plenamente de acordo com sua opinião sobre a fragilidade dos e ausência de valores bíblicos nos critérios que a mídia “gospel” utiliza para legitimar bons “ministrantes”. Eu particularmente detesto umas músicas de um pessoal que, segundo João Alexandre, estão “distante do trono”, músicas que duram de 10 a 20 minutos. O que ocorre é mesmo essa inutilidade criativa, porque o cara já não sabe mais que arranjos fazer depois de tanto tempo. Mas veículos como este e outros têm contribuido pra que nós, cristãos, tenhamos uma visão mais crítica sobre esses “ídolos importados” que “ditam as regras pra nos escravizar”. Parabéns pela postagem, pastor!

    Diego Guimarães | 7 de abril de 2010 | Comentar

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