Ajustando expectativas

“O sucesso da ação pastoral bíblica não é medido por números ou avaliações quantitativas, mas sim, pela fidelidade e integridade no exercício da vocação e chamado ministerial”

Viajando pelo Brasil nestes últimos anos, vamos acolhendo, aqui e ali, o compartilhar sofrido ou alegre de muitos pastores que estão com as mãos no arado, tentando servir ao Senhor, à igreja e ao Reino de Deus de forma fiel e perseverante durante anos. São ministros do Evangelho que insistem em cuidar de ovelhas em sua formação espiritual, num quadro desestimulante e desfavorável, colaborando, com uma ação pastoral profunda e relevante, para reverter uma expectativa imersa na “cultura de resultados” impessoal e estrutural, presente nas instituições eclesiásticas.

Essa cultura mais institucional do que orgânica alimenta e espera sempre que o pastor ou líder de uma comunidade cristã direcione suas ações no sentido do chamado “crescimento da igreja”. Um crescimento que despreza, na maioria das vezes, a qualidade relacional, a integridade pessoal e a espiritualidade genuína, simples e verdadeira das ovelhas – aquela onde Jesus Cristo, como nosso Salvador, Pastor e Senhor, sempre deveria ser o referencial e alvo de um estilo de vida coerente com os valores e fundamentos do Evangelho que ele elaborou com sua vida e seus ensinos.

Essa expectativa da “cultura de massa” presente em nossa sociedade contemporânea – a expectativa do sucesso discutível, enganoso e efêmero – tem esvaziado, intimidado e inibido o conteúdo de uma ação pastoral efetiva, que busque proporcionar ferramentas e recursos para que as ovelhas, em sua formação espiritual e serviço, cultivassem o amor a Deus em primeiro lugar,sem esquecer o amor ao próximo na família, na comunidade da fé e na sociedade; um amor responsável, que não despreza o próprio cuidado e crescimento pessoais.

Mas pastores são tentados continuamente a abandonar e deixar de lado, pelas pressões de sustento, das expectativas dos homens e da construção de uma “carreira” bem sucedida, o coração, essência e fundamento da ação pastoral legítima. O sucesso da ação pastoral bíblica não é medido por números ou avaliações quantitativas nos rebanhos e igrejas, mas sim, pela fidelidade e integridade no exercício da vocação e chamado ministerial. Do Senhor, e somente do Senhor, teremos o correto reconhecimento de tudo que fazemos e faremos no cuidado do rebanho. Claro que é bom obtermos reconhecimento do que estamos fazendo na obra e em nossa ação pastoral – mas, na maioria das vezes, tal reconhecimento não virá através de nenhum tipo de demonstração. Esta é a realidade de muitos em seu trabalho pastoral.

Como pastores, somos mais cobrados do que qualquer outra pessoa, ainda mais numa Igreja que nega parte do seu discurso histórico, deixando de estimular, dar importância e buscar que todos os crentes vivam o “sacerdócio real de todos os santos” – e que superestima os clérigos, pastores e bispos em sua atuação, poder e trabalho. Trata-se de situação absurda, triste e contraditória, mas infelizmente encontrada por todos os cantos em nosso país. Tal peso e expectativa são massacrantes e precisam ser repensados e colocados corretamente, e com sabedoria, em nossa formação pastoral e no conteúdo curricular de nossas instituições de ensino teológico. Se não fizermos isso, continuaremos a ver tantas comunidades esvaziadas em seu conteúdo, missão e visão, aumentando a evasão de membros e o segmento dos chamados “sem igreja”. Claro, esta não é a única causa do esvaziamento nas comunidades cristãs – mas sem dúvida, trata-se de uma das mais importantes.

Precisamos corresponder, sim, às reais expectativas do Senhor quanto ao trabalho pastoral. O Senhor quer ver seus líderes e pastores confessando que amam a Jesus, como servos e amigos de Deus, confirmando esse amor em obediência e devoção dedicadas. Eles devem ainda cuidar de suas famílias e cumprir de maneira fiel e perseverante sua vocação ministerial, usando e dando crescimento ao dom e à capacitação recebida do Espírito Santo, como o Senhor mesmo desejou, conforme Paulo escreve à igreja em Éfeso.

Ajustar expectativas quanto à ação pastoral é tarefa necessária e urgente, para que todos possam assumir corretamente seus papéis e funções no Corpo de Cristo, que é a Igreja. Igreja que, como expressão visível de Jesus, está no mundo para servir ao Pai e às pessoas, transformar realidades e fazer discípulos em todas as nações, manifestando a glória do Senhor aqui na terra como sal e luz até que Jesus volte.

(texto meu publicado na revista Cristianismo Hoje)


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